“A volta de Lula não cicatriza as feridas deixadas por Bolsonaro”, diz Eduardo Leite

A Tarde/Uol

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite / Foto da Internet

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ganhou os holofotes nos últimos dias após tornar pública a sua orientação sexual. Em entrevista a Pedro Bial, na rede Globo, o gaúcho chamou as atenções do país ao se assumir gay e para o processo de disputa interna do seu partido, o PSDB. Ele quer vencer as prévias do tucanato e se tornar a terceira via contra o antagonismo colocado hoje entre Lula e Bolsonaro. Em entrevista exclusiva ao A TARDE, Eduardo Leite diz que a volta do ex-presidente da República do PT “não cicatriza as feridas deixadas” por seu sucessor e que não se trata agora de ser contra Lula ou Bolsonaro, “temos que ser a favor da população”. “Precisamos trazer o país de volta para o bom senso”. “É preciso focar a energia em construir o novo, e não em destruir o velho”. Confira:

Governador, o senhor foi prefeito de Pelotas, governa hoje o Rio Grande do Sul, é jovem e acumula um histórico de bom gestor e de exímio articulador. O que te fez decidir entrar na disputa para Presidência da República?

Eu tive a oportunidade de ser prefeito da minha cidade, a terceira maior cidade do estado, Pelotas, num contexto difícil. Para quem não conhece o Rio Grande do Sul, temos uma realidade de desigualdade regional bastante acentuada. A metade sul do estado é muito mais empobrecida do que a parte norte do estado. É uma região que perdeu dinâmica econômica ao longo do século XX. Então isso já é uma dimensão do quanto que a região tinha dificuldades e problemas. Mesmo nesse contexto, eu consegui terminar o meu mandato como prefeito com 90% de aprovação, e prova disso são os 90% de votos que eu fiz na minha cidade e assumi o Rio Grande do Sul num contexto também de dificuldades e crises. O estado ficou 5 anos sem conseguir pagar o salário dos servidores em dia, entrei no governo com hospitais recebendo com atrasos, parando serviços… Um contexto de muita dificuldade. Está tudo rigorosamente em dia hoje, com o estado abrindo espaço para investimentos. Um grande programa de privatizações, concessões, modernização da máquina pública. Então isso me deu muita experiência de enfrentamento de dificuldades, dificuldades que estão aí no cenário nacional também. Talvez por isso tenha sido procurado por um grupo de lideranças políticas do partido me provocando para que eu passasse a levar essa experiência do que a gente tem feito no Rio Grande do Sul, para um debate nacional e construir uma alternativa em nível nacional. Eu estou bastante entusiasmado com essa perspectiva, e acho que posso dar uma contribuição, talvez por ser o primeiro governador e político millennial a apresentar o nome para uma disputa presidencial, uma nova geração da política.

O senhor não era conhecido no grande público, mas ganhou visibilidade nacional ao tornar pública sua opção sexual. Como avalia a repercussão e o impacto que isso tem no ambiente da política?

Eu nunca escondi, nunca tentei fazer acreditar que tinha outra orientação. Simplesmente não falava a respeito do assunto, porque, na verdade, eu torço para que um dia isso seja um “não assunto”. Mas no Brasil de hoje é um tema. Eu acho que o que realmente deve pauta no Brasil de hoje é a integridade dos políticos. Integridade no sentido de ser por inteiro, eu diria. Não ter nada a esconder. Não é a minha orientação sexual algo a esconder. A esconder têm os outros. Que escondem rachadinhas, que escondem super faturamento de vacinas, que escondem mensalão e outros problemas. Então eu achei que era importante nesse momento em que eu começo a me apresentar nacionalmente, que a população possa entender quem eu sou por inteiro sem ter nada a esconder, que é fundamental para que a gente possa construir um novo capítulo na política nacional, de superarmos essa falta de integridade presente e focarmos no enfrentamento dos problemas que realmente interessam para a população, que é o combate à miséria, o combate ao desemprego, o combate à corrupção… São temas que realmente interessam nessa política que se faz tanto do contra hoje, está muito contra uns, contra outros, nós contra eles, eles contra nós… E na verdade não tem que ser essa de uns contra os outros, tem que ser contra os problemas que afligem a população mais pobre. É nesse sentido que eu quero me dedicar. Fui muito bem recebido, muito bem acolhido na minha apresentação pública sobre a minha vida pessoal, o que me anima bastante no sentido de que há afeto mais do que ódio nesse Brasil incendiado pelo radicalismo. Há na população, nas lideranças políticas, sem dúvida nenhuma, uma oportunidade de superar esse ódio com afeto e com respeito.

O que pretende fazer para se viabilizar como candidato do PSDB, tornar a sua candidatura competitiva?

Eu acho que é exatamente o que a gente está fazendo, buscar me apresentar, o governador João Doria é alguém que merece respeito, o governo de São Paulo é importante, o governador tem sua própria dinâmica também de trabalho que merece o nosso respeito. A questão é poder tornar conhecido uma alternativa dentro do partido para que se entenda melhor quem que pode se conectar com o sentimento da população, do eleitorado. Não é exclusivamente sobre capacidade política ou capacidade de gestão. Acho que isso, tanto eu, quanto o Doria, o ex-governador e senador Tasso Jereissati e o ex-prefeito Arthur Virgílio tem. Ninguém está discutindo a capacidade individual de governar. A capacidade política-eleitoral é que tem que ser avaliada pelo partido diante do cenário em que se vive na política nacional. A capacidade eleitoral não depende apenas do candidato, ela depende do contexto. Você tem que entender o contexto e ver dentro do contexto eleitoral em que você está vivendo quem que melhor será entendido pela população como representante do que se pretende para o futuro do país. Um exemplo, o ex-governador Geraldo Alckmin em 2006 foi candidato a Presidente da República e teve 40% dos votos no primeiro turno. Doze anos depois ele concorre novamente e faz 4% dos votos no primeiro turno. Não mudou o Alckmin, talvez fosse um Alckmin melhorado, com mais experiência, com mais apoio político. Mas mudou o contexto eleitoral. O contexto não era favorável para a candidatura de alguém com o perfil do governador Alckmin. Pedia outro tipo de perfil diante das frustrações que a população tinha tido, até em função de Lava Jato, em relação à política, os políticos tradicionais. Então é isso que tem que ser entendido. Eu vou me apresentar, mostrar o meu estilo, o meu jeito de fazer política, para que possa ser entendido pelo PSDB e, se for o caso, liderar então esse projeto nacionalmente.

Qual a estratégia para romper o cenário de tanto antagonismo e tanta polarização entre Bolsonaro e Lula que se configura para 2022?

Essa polarização, o que se verifica nas pesquisas eleitorais, tem que ser entendido pelo que elas mostram para além das intenções de voto. Se por um lado elas mostram intenções de voto polarizando essas duas candidaturas, por outro lado elas mostram também rejeição muito alta às duas candidaturas. Então as pesquisas traduzem, especialmente nesse momento, mais do que intenção de voto, elas traduzem o sentimento da população. Há muita rejeição a um, muita rejeição ao outro, e essa rejeição acaba se convertendo em votos naquele que antagoniza. Então quem rejeita Bolsonaro conhece Lula e está votando em Lula, está apresentando a intenção de votar em Lula. E vice versa. Quem rejeita Lula vê em Bolsonaro o antagonista de Lula e, portanto, apresenta sua intenção de voto em Bolsonaro. Porque na verdade o eleitor ainda não conhece as outras opções, as outras alternativas. Mais do que o eleitor quer, a gente consegue perceber o que ele não quer nas pesquisas. Então eu acho que na oportunidade de ir conhecendo os candidatos, isso vai acontecer mais no ano que vem, eu não tenho a expectativa de que nesse ano se rompa a polarização nas pesquisas. Eu acho que isso vai ser algo que vai começar a acontecer quando o eleitor começar a perceber que a eleição está chegando. Porque nesse momento a preocupação do cidadão é se a vacina vai chegar a tempo de se proteger, se vai conseguir manter seu emprego, ou se vai conseguir um emprego… Então essas são as preocupações imediatas, e não a preocupação com a eleição. No momento que a eleição se apresentar, o eleitor vai começar a procurar, e eu percebo que há um sentimento de frustração com o passado do PT que se apresentou na última eleição, há um sentimento de frustração com o presente, e isso poderá ensejar a busca por algo novo e é isso que a gente quer mostrar, uma política feita a favor das causas que a população deseja, e não simplesmente em combater um ou outro. Não é contra Lula ou contra Bolsonaro, é um caminho que seja a favor das causas que a população está procurando, fugindo desse debate polarizado. Temos que ser a favor da população.

Os partidos mais ao centro erram ao não construírem uma força alternativa real para enfrentar esses polos tão antagônicos?

É que nesse momento nenhuma candidatura no centro pode avocar o direito de ser a candidatura única da terceira via, que reúna o centro na medida em que as pesquisas não demonstram isso. É compreensível e é legítimo que cada partido deseje nesse momento viabilizar-se como protagonista. Os partidos políticos, via de regra, são organizados para buscar o protagonismo do processo político. Então o que significa isso? É legítimo que Democratas procurem viabilizar um caminho, que PSDB procure viabilizar um caminho, que PDT, com Ciro, procure viabilizar um caminho. É importante que a gente mantenha a capacidade de diálogo entre essas forças para que num momento mais a frente, apropriado, a gente busque construir convergência para enfrentar esse processo, precisamos trazer o país de volta para o bom senso, o equilíbrio que é fundamental para que a gente possa avançar.

O ex-presidente Fernando Henrique se encontrou com o ex-presidente Lula na tentativa de distensionar esse antagonismo da política e construir um processo de diálogo para o próximo ano. Vale tudo para derrotar Bolsonaro?

Olha, sem dúvida nenhuma a gente precisa trazer, como eu disse, o país para o bom senso e equilíbrio. Bolsonaro infelizmente é o oposto disso. É o caminho do conflito, do confronto, de uma política que busca mais destruir do que construir. Uma frase que eu gosto muito diz que o segredo da mudança, para se fazer mudança, é preciso focar a energia em construir o novo, e não em destruir o velho. Quem gasta energia tentando destruir perde a oportunidade de construir. Tem muita energia desperdiçada no Brasil hoje na tentativa de destruição. Mas não pode deixar de ser dito que muito dessa energia canalizada para destruição feita por Bolsonaro é resultado de uma política divisiva, que buscou dividir, feita pelo PT também. O PT deu início a esse processo de discussão do nós contra eles, o tempo deles, o nosso tempo. E nesse discurso que buscou dividir sempre, separar uns dos outros, foi deixando terreno fértil para surgir Bolsonaro. Então por isso que eu entendo que a volta de Lula não cicatriza as feridas deixadas por Bolsonaro. Entendo que uma parcela da população, buscando superar os tempos difíceis que nós vivemos, lembre-se de um tempo de bonança de Lula e relembre com saudade daquele tempo. Mas é importante lembrar também que muito daquela bonança foi proporcionada cavando um buraco grande no qual o país foi lançado nos anos seguintes. Então, para a gente poder superar esses problemas, a gente tem que criar um novo caminho, e não simplesmente voltar ao passado para substituir o que está aí. Então o encontro do ex-presidente Fernando Henrique com o ex-presidente Lula é legítimo, é um encontro de ex-presidentes, só que um desses ex-presidentes é candidato. Então acho que deveria se tomar cuidado com esses encontros, mas o ex-presidente Fernando Henrique sabe o que faz, é em nome dele, não em nome do partido.

O senhor declarou voto em Bolsonaro na última eleição e é cobrado por isso hoje. Isso te deixa com uma pecha de bolsonarista arrependido como a gente vê muito no país?

É o que tentam adversários, especialmente a esquerda, colocar em mim, mas que de forma alguma corresponde à realidade. Ficou muito clara a minha posição naquela eleição de 2018. Eu poderia ter optado pelo caminho fácil de aderir, apoiar, fazer campanha junto de Bolsonaro, porque no primeiro turno das eleições o Rio Grande do Sul ele já fez mais de 55% dos votos. Então seria um caminho natural de quem quereria se eleger, quem queria se eleger a governador, mas não foi o caminho que eu optei, meu adversário sim. Meu adversário no segundo turno fez o equivalente ao BolsoDoria, que ficou famoso em São Paulo. Ele fez o SartoNaro. Era uma campanha casada do Sartori. Não foi o meu caminho. Eu fiz uma manifestação de voto, mas com críticas a Bolsonaro, mostrando a minha diferença. No segundo turno, você tem uma eleição plebiscitária. Você tem dois caminhos. Você escolhe um caminho em relação ao outro. O que nós tínhamos naquele segundo turno? De um lado, Fernando Haddad, que representava o Partido dos Trabalhadores, com graves escândalos de corrupção, buscando aconselhamento na cadeia, não era aquilo adequado, seria um recado muito ruim para um país que estava buscando superar graves denúncias de corrupção das operações Lava Jato. Do outro lado, a candidatura alternativa de Bolsonaro, que tinha um discurso durante uma vida pública inteira contrária ao respeito entre as pessoas. De ataque, de agressões. Mas, diante do quadro que se tinha, para evitar a volta do PT, naquele momento parecia o que era possível. Não tínhamos uma previsão de que teríamos uma pandemia e que a crueldade do presidente se apresentasse de forma tão grave, essa falta de compaixão que ele expressa de forma tão grave para o país num momento como essa pandemia. Então foi um erro e nós precisamos corrigir esse erro sem cometer um erro outro, que seja a volta ao passado de pouca responsabilidade e de denúncias de corrupção como a gente enfrentou.