Caio Barbosa: Mangueira diz muito obrigada a Bethânia

cartão-pronto2 - Copia - CopiaO Carnaval teve uma tarde redentora com a vitória da Estação Primeira de Mangueira nos desfiles do Rio. Uma vitória incontestável em um dos melhores desfiles deste século, que devolve à galeria das campeãs do samba uma agremiação maiúscula que não podia mais ficar fora da festa.

A Mangueira estava há longos 14 anos sem vencer ( a última vez, em 2002, foi com o enredo Vou Invadir o Nordeste), apenas como coadjuvante de uma folia que, salvo raras exceções, terminava em Nilópolis (com a Beija Flor) ou no Morro do Borel (território da Unidos da Tijuca).

E Carnaval sem Mangueira é futebol sem bola. Não pode. A redenção não se deu apenas pelo resultado, ou por ser a Mangueira, mas pela forma como ele foi conquistado. Um título histórico, com a estreia de Ciganerey como intérprete, que se mostrou autêntico discípulo de Mestre Jamelão, o maior da história.

Uma conquista que teve a marca de um carnavalesco iniciante, Leandro Vieira, que também estreava na escola e no Grupo Especial. Ele foi brilhante na condução do enredo – sobre Maria Bethânia -, com fantasias e alegorias que dialogavam com a plateia como há muito não se via.

A Mangueira, cheia de caras novas, conseguiu um feito raro no Carnaval atual, unindo emoção à (quase) perfeição estética. O enredo mostrou Maria Bethânia como ela é, trazendo a Iansã, de quem é filha, e a religiosidade marcante da carreira da cantora para dentro da Sapucaí.

Quem foi ao Sambódromo não precisou ficar de olho no livrinho-roteiro da Liga das Escolas de Samba para entender o que cada ala tinha a dizer.  A comunicação direta com o público foi o ponto forte da escola. E é disso que o povo gosta.

E é isso que estava fazendo falta aos desfiles. A vitória da Mangueira, portanto, não foi apenas uma vitória da escola criada por gênios como Cartola e Carlos Cachaça. Foi a vitória do samba, do Carnaval. A vitória de quem ama uma das maiores festas populares do planeta. E que agora agradece muito à Estação Primeira e a Maria Bethânia por renovar essa paixão.

Anotem: o Carnaval deste ano fará escolas do Rio e carnavalescos repensarem seus enredos. Será uma revolução silenciosa, mas necessária para que os desfiles no Sambódromo voltem a encantar o público de todos os cantos. E a renovar este público, cada vez mais envelhecido e distante da razão de ser daquilo tudo o que se vê na passarela.

É bem verdade que aquela festa é, desde os anos 30, quando foi criada pelo genial Mário Filho, uma disputa por quesitos. Nunca foi um desfile de blocos. Sempre foi coisa muito séria. Mas, da segunda metade dos anos 90 para cá, parece que a regra havia mudado e o objetivo passou a ser apenas conquistar pontos e não o público.

A Mangueira foi além. Voltou ao passado. E com a força de um carcará, buscou todos esses pontos sem deixar de lado a emoção. Só temos a bater palmas e louvar a Menina de Oyá.  Para fechar com chave de ouro, falta apenas a lição dada pela Verde-e-Rosa pegar o trem na estação e chegar a Madureira, onde um talentoso carnavalesco chamado Paulo Barros fez sua morada, mas ainda não aprendeu que as estrelas da festa são as escolas. Discreto e competente, foi o que fez Leandro Vieira. E acertou na mosca. Se o tiro também acertou a Águia (da Portela), como se diz por aí, é para glorificar de pé. 

 

Caio Barbosa é jornalista e torce pela Beija-Flor

Correio 24Horas