Caso Marielle: perícia afirma que porteiro que acusou Bolsonaro mentiu

Foto: da Internet

RIO — Laudo da Polícia Civil obtido pelo GLOBO concluiu que a voz do porteiro que efetivamente liberou a entrada do ex-PM Élcio de Queiroz no condomínio Vivendas da Barra, no dia do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, não é a do funcionário que mencionou o presidente Jair Bolsonaro aos investigadores da Delegacia de Homicídios (DH). O documento, assinado por seis peritos, também atesta que o áudio da portaria não sofreu qualquer tipo de edição e que a pessoa que autorizou a entrada de Élcio no condomínio foi o policial reformado Ronnie Lessa. Tanto Élcio quanto Lessa estão presos sob a acusação de terem cometido o crime.

Nos depoimentos que prestou nos dias 7 e 9 de outubro do ano passado, o porteiro pivô do caso relatou que “Seu Jair”, referindo-se a Bolsonaro, havia autorizado a entrada de Élcio no dia do assassinato. Ele também contou à polícia que o ex-PM havia pedido para ir à casa número 58, onde vivia o então deputado federal e atual presidente da República. Bolsonaro, no entanto, se encontrava em Brasília no dia, como mostrou a TV Globo.

O porteiro pivô do caso já havia recuado, após a divulgação da análise do MP. Em depoimento à Polícia Federal, em 19 de novembro, ele disse que cometeu um erro ao anotar na planilha do condomínio que Élcio pretendia visitar a casa 58, número da residência de Bolsonaro, em vez de casa 65, onde Lessa vivia. O porteiro alegou que se equivocou. O resultado do laudo reforça suspeitas de investigadores de que o porteiro que citou Bolsonaro pode ter agido a mando de terceiros.

O laudo da Polícia Civil, obtido pelo GLOBO, foi anexado na última sexta-feira ao processo do duplo homicídio. Os peritos analisaram cópias dos cinco HDs (discos rígidos) dos computadores utilizados pela administração do condomínio, apreendidos por agentes da DH no dia 7 de novembro. Para isso, usaram um equipamento do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) dotado de bloqueador de escrita, função que impede que qualquer dado do disco original seja apagado. De acordo com o laudo, não foram encontrados “indícios sugestivos de edição fraudulenta do disco analisado, correspondente ao sistema de gravação do interfone”.

No arquivo analisado, do dia 14 de março de 2018, às 17h07m42s, o áudio da portaria capta inclusive o som da discagem das teclas 6 e 5 feita pelo porteiro, números que correspondem à casa de Ronnie Lessa.

Peritos em fonética forense consultados pelo GLOBO dizem que quando um laudo indica que “é possível afirmar que existem convergências”, isso significa que o resultado é positivo. E que o mais importante é como se chegou a tal conclusão. Também dizem que é recomendado haver mais de dois peritos na produção de um laudo complexo como esse. No caso do Vivendas da Barra, houve seis peritos envolvidos.

A fala do porteiro que liberou a entrada de Élcio no condomínio dura seis segundos. De acordo com a transcrição da gravação, a pessoa que fala com Lessa segue o procedimento estabelecido pelas normas do condomínio para o acesso de visitantes. O porteiro (identificado como VM1) disca para a casa do morador — no caso, Lessa —, que atende:

VM2 (voz masculina 2): “Pronto.”

VM1 (voz masculina 1): “Portaria, boa-tarde.”

VM2: “Boa-tarde.”

VM1: “É o senhor Elson (Élcio).”

VM2: “Tá, pode liberar aí.”

VM1: “Tá okay.”

VM2: “Valeu”.

O laudo explica que o dono da voz masculina 2, Lessa, não se identifica. No entanto, os peritos analisam que, quando ele fala a expressão “pronto”, percebe-se rispidez no trato com o porteiro. O tempo da fala do acusado do assassinato de Marielle dura apenas três segundos e, segundo o exame, “não permite uma avaliação mais abrangente de suas características fonológicas e linguísticas”, como é feita com a voz do porteiro.

Das 1.938 ligações para o imóvel 65, no primeiro trimestre de 2018, foram examinadas 1.317 ligações. Deste total, segundo o laudo, apenas 13 são atendidas por Lessa.

O Globo