Pesquisas testam ayahuasca no tratamento de depressão e alcoolismo

Imagem tirada em fevereiro de 1999 de uma liana Ayahuasca em Tarapoto, no nordeste da selva do Peru (Foto:  Jaime Razuri/AFP/Arquivo)
Imagem tirada em fevereiro de 1999 de uma liana Ayahuasca em Tarapoto, no nordeste da selva do Peru (Foto: Jaime Razuri/AFP/Arquivo)

Uma pesquisa desenvolvida no Instituto do Cérebro (ICe) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte testou a ayahuasca como antidepressivo, e obteve resultados iniciais positivos em pessoas que apresentam quadro de depressão. A solução psicoativa é usada comumente em cerimônias religiosas, como Santo Daime e Jurema. Contudo a ciência tem se debruçado sobre a utilização medicinal desse chá.

De acordo com o que afirma a pesquisadora Fernanda Palhano, que defendeu este ano sua tese de doutorado com base nesse teste, orientada pelo professor Draulio Araújo, a maior parte das pessoas que tomou a ayahuasca apresentou melhora nos sintomas depressivos. Segundo ela, foram 64% dos pacientes que beberam o chá com melhora clínica em até sete dias após o experimento.

“Fizemos o que se conhece por ensaio clínico duplo cego randomizado. Isso significa pegar um grupo de pacientes, dividi-lo ao meio e de maneira aleatória separar os pacientes que vão fazer parte do tratamento que se quer testar, no nosso caso a ayahuasca, ou do grupo placebo. Além disso, nem pacientes nem pesquisadores sabiam qual a substância, ayahuasca ou placebo, estava sendo administrada, daí o termo duplo (para pacientes e pesquisadores) cego”, explica.

Para a pesquisa, foram selecionados pacientes que tinham depressão resistente ao tratamento. “Ou seja, pessoas que já tinha feito uso de diversos antidepressivos comerciais, mas que não tinham melhora do quadro depressivo. Além disso tínhamos um grupo de indivíduos saudáveis, que foram usados como controle”, detalha a pesquisadora.

Ao todo, 29 pessoas com depressão participaram da experiência, além das 50 pessoas saudáveis do grupo de controle. Entre os doentes, 15 receberam placebo e 14 a substância real.

Procedimentos

O experimento durava quatro dias. No primeiro dia, o paciente era submetido a uma série de avaliações, tais como entrevistas com psiquiatra, psicólogo, exame de ressonância magnética funcional.

Fernanda Palhano relata que a pessoa dormia no hospital enquanto fazia uma eletroencefalografia (método de monitoramento utilizado para registrar a atividade elétrica do cérebro) durante o sono. Pela manhã, eram coletadas amostras de sangue e saliva. Na mesma manhã, era feita a administração de uma única dose da substância (ayahuasca ou placebo).

“A sessão de tratamento tinha duração de aproximadamente 8 horas. Ao final da tarde o paciente era liberado para voltar para casa. No dia seguinte, ele retornava ao hospital e as mesmas avaliações do primeiro dia eram refeitas. Novamente ele dormia no hospital, e no outro dia, pela manhã, era liberado”.

O paciente retornava para consultas com o psiquiatra 7 dias, 14 dias e 1 vez por mês durante 6 meses após o tratamento.

“Nosso primeiro resultado é com relação ao efeito antidepressivo da ayahuasca, aos dados das escalas psiquiátricas que medem a gravidade da depressão. Vimos que logo no primeiro dia após o tratamento há uma diminuição significativa dos sintomas depressivos nos pacientes que beberam ayahuasca quando comparados aos que beberam placebo”, conta a pesquisadora.

Esse efeito, de acordo com Fernanda Palhano, permanece e é ainda maior 7 dias após o tratamento. “Com 7 dias, encontramos que 64% dos pacientes do grupo ayahuasca (nove pessoas) tem uma resposta clínica, enquanto que apenas 27% dos pacientes do grupo placebo (quatro pessoas) melhoraram”, afirma.

As informações obtidas nos exames realizados ao longo do experimento estão sendo analisados pelos pesquisadores do Instituto do Cérebro. De acordo com Fernanda Palhano, esses exames médicos ainda podem ajudar a compreender os mecanismos de ação da ayahuasca no organismo e o porquê de o chá ter o efeito antidepressivo mostrado nos testes. “Outra parte importante do trabalho é entender o que muda nesses pacientes com depressão quando comparados aos controles saudáveis”, acrescenta.

Segundo Fernanda Palhano, o próximo passo da pesquisa é ampliar a quantidade de pacientes tratados, e testar esquemas de tratamento de pacientes através da ayahuasca, não mais apenas ministrar uma dose do chá.

O estudo ainda não foi publicado, mas há uma versão em preprint disponível no link.

Vejam mais: https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/pesquisas-testam-ayahuasca-no-tratamento-de-depressao-e-alcoolismo.ghtml

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