Superguia do Fies e financiamentos universitários: veja simulações, tire dúvidas e avalie riscos antes da dívida

Sai o resultado do Programa Universidade Para Todos (Prouni) e seu nome não está na lista. Procura entre os aprovados no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e a notícia também não é boa. Uma alternativa comum, que parece salvar o candidato de mais um ano fora da faculdade, é o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A ideia parece sedutora: entrar em uma universidade particular e começar a pagar as mensalidades só depois de formado. Mas será que é essa a melhor solução? Ela pode significar começar a vida adulta com uma dívida de milhares de reais.

Caike Falcão, de 25 anos, começou a cursar jornalismo em Fortaleza, após ser aprovado no Fies. Na metade do curso, percebeu que o mercado de trabalho na área está cada vez pior – além de enfrentar dificuldade para conseguir um emprego na área, os salários eram baixos. “Tranquei a matrícula e saí da faculdade. A dívida se acumulou e estou inadimplente. Não consigo quitar nem a metade do curso que fiz. Sem contar os juros, preciso pagar quase R$ 3 mil por mês, até 2031”, conta.

“Eu era muito novo, queria começar logo a estudar, não pensei com calma antes de aderir ao Fies. Não recomendo a ninguém, a dívida é uma bola de neve”.

Caike Falcão desistiu de estudar jornalismo e não consegue pagar a dívida do Fies relativa ao período cursado. — Foto: Arquivo pessoal
Caike Falcão desistiu de estudar jornalismo e não consegue pagar a dívida do Fies relativa ao período cursado. — Foto: Arquivo pessoal

O perigo, conforme relatam especialistas e alunos, é assinar um contrato de empréstimo sem ter clareza sobre quais serão as normas para o pagamento. Por quanto tempo o jovem precisará pagar por essa graduação? Quais os juros? E aí vem o desafio: não é fácil descobrir essas respostas. O edital do Fies é nebuloso, repleto de fórmulas matemáticas complexas.

Por exemplo: qual o percentual da mensalidade que pode ser financiado? A resposta:

f = 100% -{ [(16% + 0,02%*RFPC)*RFPC + a*m]/m}*100%

Ou: se conseguir um emprego assim que me formar, qual vai ser a tal parcela mínima que será descontada do meu salário todo mês?

Percentual Vinculado à renda = Min {[b*ln(renda bruta) + a]*100%; 13%}

Os bancos também não costumam esclarecer as dúvidas. No site do Fies, depois de fazer o cadastro, até existe um simulador do financiamento. E, nas palavras dos candidatos, ele não é exatamente claro.

Maria Eduarda Rozemberg, de 20 anos, cursa psicologia na PUC-MG, em Betim. Ela conseguiu entrar na universidade particular por causa do Fies, no modelo antigo. E se queixa da falta de assistência no momento de decidir pelo financiamento. “Não ficou nada claro para mim quando eu assinei o contrato. Ninguém tirou minhas dúvidas sobre juros. Aceitei na pressão de precisar entrar na faculdade. Eu tinha 17 anos, não sabia o que estava fazendo”, diz.

Justamente por, muitas vezes, as condições de pagamento não estarem claras, alguns jovens, em 2019, sequer estão considerando o Fies como opção. É o caso de Vitória Oliveira, de 18 anos, de Santa Maria (RS). Ela conta que já tem o “nome sujo” – e teme que sua situação financeira piore.

Vitória Oliveira não quer aderir ao Fies por medo da dívida — Foto: Arquivo pessoal
Vitória Oliveira não quer aderir ao Fies por medo da dívida — Foto: Arquivo pessoal

“Tenho medo de não me realizar profissionalmente e não ter nunca esse dinheiro do financiamento. Trabalho desde os 16 anos e minha família não tem luxos”, conta. “Estou esperando o Sisu do ano que vem para tentar uma faculdade pública.”

Veja, a seguir, os detalhes do Fies:

Para quem é o Fies? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1Para quem é o Fies? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1

Para quem é o Fies? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1

O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) foi criado em julho de 2001, pelo Ministério da Educação (MEC). O objetivo é auxiliar os estudantes que não têm condições financeiras para pagar as mensalidades de uma universidade particular.

Em 2018, o programa foi modificado e passou a ser conhecido como “Novo Fies”. São duas modalidades:

Fies

Para quem: estudantes cuja renda familiar per capita seja de até 3 salários mínimos (R$ 2.994,00)

Como funciona: Pela nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2018, são selecionados alunos que terão as mensalidades da graduação financiadas a juros zero. O contrato de financiamento deve ser assinado na Caixa Econômica.

De quanto será o financiamento: Dependendo da renda do candidato, ele “pegará emprestada” uma determinada quantia. Por exemplo: supondo que tenha direito a 80% de financiamento. Se a mensalidade for de R$ 2 mil, ele terá de pagar R$ 400 por mês. Os outros R$ 1,6 mil serão quitados depois de terminar a graduação.

O que pagarão durante o curso: O estudante precisará pagar, todo mês, aquela quantia que não foi financiada (no exemplo acima, os R$ 400) + uma taxa de “gastos operacionais” com o Fies + um seguro de vida. Por que esse seguro? A justificativa é simples: em casos de invalidez ou morte do estudante, essa quantia compensará o governo da dívida do Fies que não será paga. De acordo com o MEC, o seguro é composto por parcelas mensais de cerca de R$ 5 – e nos cursos de medicina, de R$ 15.

E depois do curso? Assim que concluir a graduação, o formando precisará começar a pagar a dívida do Fies. Ou seja: quitar todo aquele valor que ele deixou de gastar durante o curso. Nessa modalidade do Fies, se não houver atraso, não há juros.

Para evitar a inadimplência, a quantia mensal é descontada direto da folha de pagamento do recém-formado. Ela é proporcional ao salário dele. A fórmula para descobrir de quanto será a parcela é aquela lá do começo do texto: Percentual Vinculado à renda = Min {[b*ln(renda bruta) + a]*100%; 13%}

Para facilitar, vamos dar um exemplo:

Exemplo mostra como seria o pagamento da dívida do Fies de um estudante de administração — Foto: Fernanda Garrafiel/G1
Exemplo mostra como seria o pagamento da dívida do Fies de um estudante de administração — Foto: Fernanda Garrafiel/G1
Exemplo mostra como seria o pagamento da dívida do Fies de um estudante de administração — Foto: Fernanda Garrafiel/G1

O valor das parcelas dependerá de qual for o salário dele. Vamos supor que ele consiga um emprego, assim que se formar, cujo salário seja de R$ 1.700.

Todo mês, serão descontados R$ 158,44 da folha de pagamento.

A expectativa do MEC é que a pessoa consiga um emprego melhor em pouco tempo e, consequentemente, tenha uma renda mais alta. Assim, terminará de pagar a dívida de R$ 132 mil em 14 anos, em média.

Mas supondo que ela continue com esse salário por toda a vida. É uma situação, claro, que ninguém espera que aconteça. Mas, nesse caso, seriam 69 anos pagando parcelas da dívida.

E se estiver desempregado?

Vamos lembrar que Lucas pagava R$ 1.240 durante a graduação, além das taxas. Pelas regras do Fies, mesmo que ele esteja desempregado, terá de desembolsar uma quantia mínima por mês, que será de:

  • no 1º ano: 70% do valor que era pago mensalmente durante o curso (sem contar taxas) – R$ 868
  • no 2º ano: 75% do valor que era pago mensalmente durante o curso (sem contar taxas) – R$ 1.054
  • no 3º ano: 100% do valor que era pago mensalmente durante o curso (sem contar taxas) – R$ 1.240

Ou seja: se Lucas não conseguir um emprego assim que terminar a graduação, vai precisar pagar R$ 868 por mês no primeiro ano, R$ 1.054 no ano seguinte, e R$ 1.240 do terceiro em diante.

Se ele não pagar alguma parcela, haverá juros e multa pelo atraso.

E o P-Fies, o que é? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1
E o P-Fies, o que é? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1
E o P-Fies, o que é? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1
Essa modalidade, chamada de P-Fies, tem proporções bem menores. Em 2018, por exemplo, foram 2.500 contratos firmados – no Fies, o índice foi de 82.363 financiamentos.

Para quem: Estudantes cuja renda familiar per capita seja de 3 a 5 salários mínimos (R$ 2.994 a R$ 4.990)

Como funciona: A maior diferença do P-Fies em relação ao Fies é que o financiamento é firmado em agentes financeiros privados. São os bancos que vão definir as condições do pagamento, como os juros, por exemplo.

E exatamente daí vem uma série de dificuldades: em primeiro lugar, não é fácil encontrar uma instituição que participe do P-Fies. Só foi possível ter acesso a essa lista de parceiros quando o G1 entrou em contato com o MEC. São eles: Banco do Nordeste, Banco da Amazônia e outros três, por meio do programa “Pravaler”: BV Financeira, Itaú Unibanco e Banco Andbank.

A tendência de vários bancos é oferecer esquemas próprios de financiamento, em vez tirar as dúvidas sobre o Fies.

É um obstáculo conseguir ter clareza das condições de pagamento. “O fato de haver um prazo para o aluno assinar o contrato pode fazer com que ele não se atente a questões importantes. Precisa olhar os juros, entender qual a penalidade caso haja atraso de alguma parcela, verificar como será o pagamento”, explica Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito).

“É importante ficar atento a gastos acessórios. Alguns bancos cobram para fazer um cadastro ou exigem que o estudante tenha um cartão de crédito da instituição. Esse tipo de venda casada não pode acontecer”, completa.

Assinar ou não assinar o contrato? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1Assinar ou não assinar o contrato? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1Assinar ou não assinar o contrato? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1
Vamos supor que o estudante tenha a real noção das condições de financiamento. Várias questões precisam ser levadas em conta antes de assinar o contrato com o agente financeiro. (Assista ao vídeo acima)

1- Nessa época da vida, quais são seus planos?

Ao se formar na faculdade, o jovem pode ter ambições como morar sozinho, comprar um carro ou se casar. Se ele assumir uma dívida alta como a do Fies, precisará eleger uma prioridade.

2- Quanto do salário pode ficar comprometido?

Marcela, economista do SPC, reforça que é preciso planejar a parcela da renda que poderá ficar comprometida com o financiamento. “Os especialistas dizem que, em geral, o ideal é destinar no máximo 30% do salário para dívidas. Mas essa porcentagem é muito relativa. Se o jovem mora com os pais e não precisa ajudar a pagar as contas, pode reservar uma parcela maior do ganho mensal para o financiamento”, diz.

“Por outro lado, há quem, aos 20 anos, já seja responsável pelo orçamento da família. Aí 30% é muito”, alerta.

O ideal, segundo ela, é fazer uma planilha com todos os gastos previstos: água, luz, telefone, plano de internet do celular, aluguel, alimentação, transporte, etc. Sem esquecer o lazer, como cinema ou comer fora.

“Nunca o orçamento deve ficar comprometido até o limite. Imprevistos acontecem. E aí, se a pessoa estiver com dívidas pendentes, vai cair no cheque especial ou nos juros do cartão de crédito”, completa a economista.

3- Qual o salário de um recém-formado?

Aos 20 anos, Tuanne Marinho cursa fisioterapia pelo Fies. Estudou durante todo o ensino médio em uma escola pública carioca e optou pelo financiamento para conseguir entrar na universidade privada. “Tento juntar dinheiro agora, para pagar minha dívida depois, mas não consigo. Trabalho como jovem aprendiz e ganho meio salário mínimo. Então meu plano é conseguir um emprego depois de formada e aí quitar meu financiamento”, diz.

Tuanne pretende conseguir um emprego logo após se formar para pagar a dívida — Foto: Arquivo pessoal
Tuanne pretende conseguir um emprego logo após se formar para pagar a dívida — Foto: Arquivo pessoal
Tuanne pretende conseguir um emprego logo após se formar para pagar a dívida — Foto: Arquivo pessoal

Dorgilan Rodrigues da Cruz, presidente do Conselho Regional de Economia do Piauí (Corecon-PI), conta que a estratégia de Tuanne é semelhante à de vários outros estudantes do Fies. É preciso, segundo ele, pesquisar antes qual costuma ser a remuneração média de um recém-formado naquela área. Vai ser suficiente para pagar a dívida?

“Com a crise financeira, a maioria não ingressa logo de cara no mercado. Pode passar aproximadamente 16 meses ociosa. Então é preciso prestar atenção nos valores das parcelas para concluir se há condição de pagá-los”, diz. “Se fizer estágio, pode tentar guardar um dinheiro ao longo do curso. Não dá para se empolgar com festas e esquecer esse compromisso.”

A economista-chefe do SPC recomenda: “Considere também em qual faculdade vai estudar. Converse com profissionais da área para saber se a instituição é absorvida pelo mercado. Não vale a pena entrar em alguma que não seja tão boa e depois ter dificuldade de conseguir um emprego.”

Não há alternativas melhores que o Fies? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1
Não há alternativas melhores que o Fies? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1
Não há alternativas melhores que o Fies? — Foto: Fernanda Garrafiel/G1
1- Tente um financiamento na própria faculdade.

O Fies não é a única forma de financiamento estudantil – algumas universidades também oferecem formas de empréstimo para os estudantes. Segundo Marcela Kawauti, costuma ser mais fácil tentar reduzir os juros com a faculdade do que com o banco.

2- Informe-se sobre bolsas na faculdade

O economista Dorgilan recomenda que o candidato preste o vestibular e, caso seja aprovado, faça a matrícula. “Ele pode tentar negociar algum desconto na mensalidade, dependendo do seu desempenho. Ou fazer parte de projetos internos, como de iniciação científica, para ter uma bolsa”, diz.

3- Espere mais um ano.

Parece frustrante adiar o plano de entrar na faculdade, mas, segundo os especialistas, pode ser melhor do que ter uma dívida em um momento de tantas aspirações – sair da casa dos pais, começar a pagar as próprias contas.

É difícil resistir à pressão social de ingressar no ensino superior logo após terminar o ensino médio. Mas é preciso refletir o preço disso. Aguardar um semestre ou um ano não significa que o jovem ficará parado durante esse período.

Ele pode buscar outras possibilidades: estudar sozinho em casa, por exemplo, com a ajuda de vídeos no Youtube. Ou até procurar cursinhos pré-vestibular que sejam gratuitos ou de baixo custo. Assim, aumentarão as chances de ser aprovado em universidades públicas ou no Prouni, com bolsas de 50% ou 100%.

4- Tente uma bolsa no cursinho.

Caso o estudante escolha estudar em um cursinho pré-vestibular de renome, que tenha mensalidades mais altas, é possível pleitear descontos ou até mesmo bolsas. Nos inícios de semestre, a maioria das instituições aplica testes de conhecimento – dependendo do desempenho do candidato, ele consegue reduzir o valor que pagará por mês.

Ou, mesmo que o jovem pague as mensalidades integralmente, pode pensar em um financiamento de um ano. É melhor ter um empréstimo de um ano de cursinho do que de quatro da graduação.

5- Faça investimentos durante o curso.

Se a opção for de fato o Fies, é possível pensar em aplicações financeiras que auxiliem no pagamento da dívida. Qualquer quantia que sobre do salário de estagiário, por exemplo, pode servir para ser aplicada no Tesouro Direto.

“Há várias opções: os títulos prefixados ou aqueles que dependem da inflação (IPCA). Há também investimentos em LCI e LCA (títulos imobiliários ou de agronegócio), que são isentos de imposto de renda após 30 dias”, recomenda Dorgilan Rodrigues da Cruz. “Os investimentos em ações são rentáveis, mas é preciso ter conhecimento prévio. Melhor ser cauteloso e escolher o Tesouro ou LCI/LCA”, conclui.

6- Informe-se sobre financiamentos nos bancos.

Essa opção exige bastante cautela. No Bradesco, por exemplo, o estudante tem 12 meses para pagar as mensalidades de um semestre de faculdade. Mas isso envolve juros. No “Pravaler”, pelo Itaú, é o mesmo sistema: pagar um semestre em um ano.

Esses créditos não exigem que o candidato tenha feito o Enem. A aprovação do financiamento depende da renda do estudante e de seu garantidor. Se os dois ganharem R$ 2 mil, podem financiar curso de até R$ 1.818,00 no “Pravaler”.

É importante se atentar às taxas cobradas pela instituição financeira. Exemplo: um curso cuja mensalidade seja de R$ 2.385,58 custará R$ 14.313,48 por semestre. No crédito do Bradesco, esse valor poderia ser parcelado em 12 vezes de R$ 1.357,56. Com os juros, o valor total aumentaria para R$ 14.607,61.

Os economistas alertam também que é necessário sempre prestar atenção em quando será paga a primeira parcela – no caso do Bradesco, seria em março, logo no início da graduação.

Fonte: https://g1.globo.com

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